domingo, 7 de junho de 2015

Eutanásia

Eu acordo todos os dias gritando para a morte me buscar. Imploro a Deus, porque já cansei de tentar me matar e não dar certo. Meus primeiros pensamentos do dia são voltados para o fim da minha existência. Eu não aguento.
Os dias passam se arrastando, sou um morto vivo. E se de repente alguém me disser "isso é egoísmo", digo que depois de um tempo nem frases escassas como essa me fazem repensar. Viver tornou-se um fardo tão doloroso que depressão agora é uma doença terminal.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Você colhe o que planta

Ben usava luvas de jardineiro marrons para plantar uma muda num buraco de terra circular. Seu sorriso não era sarcástico como na maioria das vezes e sim afetuoso.
- Você colhe o que planta. Esta, por exemplo, é uma espécie própria do que os encarnados chamam de submundo. Ela aprisiona almas do umbral e assim suas folhas são revestidas. Quanto maior o pavor e o desespero, mais forte a árvore ficará. Essa aqui que estou plantando é sua. É minha oferenda de proteção a ti, minha criança. Quando alguma entidade quiser lhe machucar, eu a prenderei na sua árvore.
Olhei para aquela muda aparentemente inofensiva, verde e de folhas ovaladas.
- Veja - ele apontou para as bordas das folhas. -, já está criando a essência.
Uma névoa negra circundava as bordas e sorri de volta.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Sr. Misterioso

O que seus olhos escondem, Sr. Misterioso?
O que faz o toque de suas mãos deixarem um monstro receoso?
O que faz a sombra da lua nova fechar os olhos da maioria
E que deixa a sua beleza exposta em demasia?

Me diga, Sr. Misterioso
O que faz a sua presença deixar um monstro receoso?
Em seus dedos a geleira se desfaz
E costura feridas que o homem faz

Me diga, Sr. Misterioso
O que faz a sua boca deixar um monstro receoso?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Obrigado.

Obrigado por me calar dizendo "engole o choro" quando sua intenção era me fazer forte diante das tristezas. Obrigado por atrapalhar nos meus relacionamentos quando queria o melhor para mim.
Obrigado por sempre estar do meu lado quando tudo o que eu tinha era um buraco no peito e o costurou lentamente enquanto me ensinava o quanto o mundo lá fora é cruel.
Obrigado por ser o meu alicerce, a minha muralha, a minha segunda mãe.
Obrigado, Ben.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Minha donzela

Aproximei-me do corte no braço de Karen e pedi, com os olhos pidões, para encostar meus delicados lábios famintos sobre sua pele morena.
Ela acenou positivamente com a cabeça, os cabelos azuis movendo-se com o simples movimento.
Quando quebrei o contato visual, pus meus dedos nodosos em seu braço direito macio e levei o corte à boca.
Minha língua tateou a primeira gota de sangue. Sua forma líquida tornou-se uma pesada e sólida barra de ferro que passou pelo meu paladar ansioso até o fundo da minha garganta clemente. E do mesmo fundo, um ronrono ressoou inebriado pelos meus lábios selados em sua pele.
Minha sede sorveu cada gota, até que seu ferimento cicatrizou e recebi tapinhas na nuca simbolizando que devia parar.
Quando dei por mim, encontrei os olhos heterocromáticos de Karen um pouco assustados.
- Está tudo bem... - falei, ainda com o gosto do fluído vital abraçando minha garganta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Meus pés frios...

Minha mente permeia um muro de solidão fria
Onde os entalhes de tristeza recebem toda a luz do dia
Os arrepios da morte tocam meus ombros doloridos
Uma tinta cinza pinta meus sonhos descoloridos

Meu sangue congela em minha veia
Meu mundo cabe na minha banheira cheia
Meus pés molhados destoam gota a gota
Minha cabeça pende no colo da minha garota

Canto para a morte desde criança
O laço da minha forca é feito com minha trança
Minha voz sufoca o ar que não quer entrar
Meus pulmões reclamam não querendo mais respirar

Minha doença assola minha mente
Tornando-me mero paciente
Envolto em roupas escuras
Tento encontrar meu fim em todas as ruas

sábado, 10 de janeiro de 2015

Hoje eu me senti tão triste...

Hoje eu deitei minha cabeça no travesseiro
E fechei os olhos esperando nunca mais abri-los
As pessoas dizem que eu sou um guerreiro
As portas se fecharam me deixando sem abrigo

Minha mente dá voltas e pulo em um buraco negro
Tenho pena de mim mesmo
Sou como uma lagarta procurando ar fresco

Meu amor é suicídio
Onde mergulho num mar rubro de ondas e desespero
Tento abraça-lo e só consigo me sufocar
Um reino inquebrável de gelo

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Depressão


Está sendo cada vez mais difícil aguentar essa maré. A depressão me atinge tirando todas as minhas forças e alicerces sólidos, logo não tenho chão, apenas uma escuridão infinita no vazio de um mundo repleto de dor.
A vida é uma pressão muito grande para eu suportar. Uma pressão que faz meus pulmões ruírem ao inflar, meu coração doer ao bater.
Há momentos em que eu desabo no chão, puxando meus cabelos e a ponto de chorar compulsivamente. Há momentos em que essa dor só desaparece com cortes, mas para começar tudo de novo outra vez.
Sinto-me no fundo de um oceano, onde eu não consigo subir, apenas descer cada vez mais abissal. Mas não morro, fico entre a vida e a morte.

No final, nem eu sei o que está a acontecer comigo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Strawberry fields forever

A cesta de cerejas embebidas em mel de Edward balançava de um lado para outro enquanto as copas das árvores farfalhavam nos dois lados, fazendo um caminho natural até a plantação de morangos.
Finalmente havia chegado. Londe dos problemas. Longe do inferno. Longe de pessoas mal educadas. Perto do paraíso.
O sol brilhava aquecendo sua pele de porcelana ávida por calor. Ao longe, um garoto de 17 anos descansava entre os morangos recém colhidos, esperando pela irmã.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Suicídio

Ele via o cansaço nos olhos do parceiro e aquilo lhe doeu muito. Por que tinha que ter nascido?
O quarto não parecia ser o mesmo em que aconteciam noites quentes em cima de uma cama, não com um cansado Arthur sentado ali, olhando para o chão e pensando em coisas que nem ele mesmo sabia dizer.
Edward respirou fundo, tentando se lembrar de como fora parar no chão branco, mas logo deduziu que pelo suor que lhe escorria frio pelas costas e a exaustão cardíaca, tinha tido outra alucinação. Ah, sangue novamente. Aquilo já estava passando dos limites, todos os dias a mesma coisa, sua mente pregando uma peça em si mesmo e boicotando a relação dos dois. Por longos segundos teve vontade de chorar, não por si, mas pelo sofrimento do amado.
- Amor... - Edward sussurrou, a voz saindo mais sufocada do que esperava, o coração palpitando e o deixando tonto.
Arthur pareceu não ouvir, tampouco desviou o olhar do chão.
- Amor! - Edward chamou mais uma vez, envolvendo o outro com os braços, mas sendo afastado pelo mesmo. Aquilo partiu seu coração, e antes mesmo das lágrimas escorrerem livres, ele correu cambaleante dali, ainda sob os efeitos da alucinação. Tropeçou nos próprios pés, mas logo se recompôs, saindo da casa tentando enxugar as lágrimas.
Andou sem destino, apenas sentindo a dor no peito, odiava ver seu amor evitando-o... e era tudo culpa sua.
As pessoas pareciam ter desaparecido das ruas e Edward vagou sozinho por mais ou menos doze minutos, tentando segurar o choro. Mas não dava: pesava em sua consciência que era um sufocador, um parasita. A imaginação ajudou e o fez pensar em cenas de seu Arthur rindo de uma outra pessoa normal, que não possuía doenças mentais. Cortou a alma mais ainda, só que sorriu mesmo assim, sabendo que ele estaria feliz.
E assim Edward parou, avistando um carro vindo em alta velocidade. A dor dos dois não iria mais perdurar.
Um passo, depois o outro, rapidamente... e a visão do sorriso perfeito de Arthur foi seu último pensamento.